sábado, 2 de abril de 2011

Morre lentamente - Pablo Neruda

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, 
quem não ouve música, 
quem não encontra graça em si mesmo. 

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, 
quem não se deixa ajudar, 
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, 
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, 
não se arrisca a vestir uma nova cor 
ou não conversa com quem não conhece. 

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. 

Morre lentamente quem evita uma paixão, 
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoínho de emoções, 
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos. 

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, 
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, 
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos. 

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante... 
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, 
não pergunta sobre um assunto que desconhece 
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe. 
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar. 
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade"

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